quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Revelação

Já se ouve cantarolar a Jingle Bells aqui e ali. As lojas já começam a preparar-se para o reforço de Natal e para as típicas correrias dos portugueses até ao último dia pelas prendas. Por um motivo ou por outro, toda a gente, no geral, aprecia o Natal. Há os que acreditam na verdadeira razão pela qual é celebrado e seguem a tradição; há os que, simplesmente, aproveitam a quadra para estarem junto daqueles que amam, rever família e estreitar laços que se vão perdendo ao longo do ano; há as crianças, que ficam excitadíssimas com a ideia de receberem prendas, especialmente, quando a família é grande e elas nunca mais acabam; há, claro, os comerciantes, que deliram com a chegada do Natal, pois é quando a clientela abre os cordões à bolsa; e depois estou eu.

A chegada do Natal perturba-me a um nível que ninguém entende. Porque ninguém sabe. Porque é um segredo demasiado doloroso e obscuro. Está na altura de contar, de se fazer justiça por mim e por quem possa ter passado pelo mesmo e de proteger quem possa vir a estar no meu lugar. Mas o medo… A mudança e a destruição que implica. A quantidade de vidas que vai mudar… Pergunto-me se será o momento certo e penso que não, mas quando será? Já se passaram dez anos e continuo a adiar, para proteger toda a gente da terrível verdade. Mas chega. Não posso continuar a esconder. Pouca gente sabe, mas estou grávida e isso põe tudo em perspectiva. Aterroriza-me a ideia de que o meu rebento possa vir a passar pelo mesmo e isso está acima de tudo e de todos. Já não quero saber da possível rejeição da minha família, do abafar, do esconder o que parece mal, dos julgamentos murmurados e dos olhares reprovadores.

Todos os Natais sou obrigada a enfrentar o meu pior pesadelo. E todos os Natais tenho vontade de lhe gritar que o meu presente deste ano é dizer-lhe tudo o que já devia ter dito, desmascará-lo em frente a toda a gente e dizer-lhe que, apesar de ter apenas sete anos quando tudo aconteceu, me lembro claramente dos abusos que sofria por parte dele todas as noites. Que me lembro do cheiro dele na minha roupa, do seu corpo adulto a sujar a minha infância. Era um bebé, sabia lá que aquilo não se fazia, que era errado. Assustava-me, porque desconhecia, mas como podia saber que estava a ser violada, abusada, desrespeitada? Por causa dele, rejeitei amores e oportunidades de ser feliz. Por causa do que ele me fez, perdi muito tempo com receio que todos os homens me fizessem sentir como ele fez e levantando muralhas à minha volta. O meu companheiro conseguiu quebrá-las, com muita paciência, amor e carinho, mesmo sem ter conhecimento do que me aconteceu há tantos anos. E deu-me o que tenho de mais precioso, o bebé que carrego na barriga, o fruto de um amor verdadeiro e resistente. Orgulho-me de mim, hoje em dia, por ser capaz de estar numa relação sem medos. Mas irei orgulhar-me ainda mais quando contar toda a verdade. Hoje à noite, irei contar ao pai do meu filho. E, dentro de dois meses, quando o Natal chegar em todo o seu esplendor e a família estiver toda reunida, juntos, iremos explicar a vítima que fui em tempos. E mostrar a mulher forte que sou hoje. Porque não vai ser a atitude promíscua e odiosa de um ser desprezível que vai ditar a forma como enfrento o meu dia-a-dia.

É a minha escolha, o meu caminho. São as minhas regras, a minha vida. E eu escolhi ser feliz.

(Nota: Esta história não se aplica a mim, é apenas para dar força a quem passou ou está a passar por isso; a personagem, apesar de a história ser contada na primeira pessoa, é fictícia)

3 comentários:

  1. Cinthia...nem sei o que te dizer...
    Nao imagino que foi o autor dessa monstroosidade, mas tambem nao interessa...è um molestador, pedofilo...tens e deves avisar toda a tua familia...se calhar ha mais alguem que abafa esse segredo...quem sabe nao molestou mais pessoas na familia...Deve ser muito muito doloroso, nao consigo imaginar...mas nao permitas que o continue a fazer...quem sabe, no meio do silencio de mais uma criança!!
    Axo que fazes bem...conta á tua familia o que te tem atormentado todos estes anos...conta-lhes como te roubaram a infancia!!
    Um abraço muito apertadinho!!
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. Querida, esta história não se aplica a mim... Agradeço mto as tuas palavras, és uma fofa, mas eu escrevi-a para dar força a toda a gente q passou por isso ou q está a passar. Conheço uma pessoa a quem aconteceu e q está grávida... mas tem medo de contar à família, medo de rejeição, etc. E eu escrevi isto para demonstrar o meu apoio a essa pessoa e a todas as outras na mesma situação. E não podia concordar mais contigo, este tipo de coisas tem q se contar, especialmente qd há crianças na família q podem estar a passar pelo mesmo.

    ResponderEliminar
  3. Fico bem mais feliz, ao saber que nao estas a passar por essa "agonia"...alem de saber que ha "n" pessoas a passar por tal tormento!!
    èuma realidade muito triste!!
    Beijocas grandes!
    (eu sou a kris, do blog amas frustradas, mas no meu blog pessoal!!)

    ResponderEliminar

Manda o teu bitaite