Na fábrica onde trabalho, os temporários não podem ficar por mais de um ano. Têm que sair e ficar um mínimo de quatro meses fora da empresa, para depois poder voltar. Não é o meu caso, porque o pequeno sítio onde estou é chamado de outsourcing (recebemos menos, mas temos direito a férias e a ficar por termo incerto). Esta semana, um colega meu completou um ano e, por isso, teve que sair. Na 4ª feira, veio um rapazinho substitui-lo. Devo dizer que ali existe um pouco de má gestão e organização. Nunca recrutam a pessoa nova enquanto a outra ainda lá está, para integrar e dar formação a quem vai substitui-lo. Contratam o substituto e largam-no aos leões. Depois passa-se um de dois cenários: ou essa nova pessoa apanha colegas disponíveis e pacientes para o ensinar e ajudar ou tem o azar de ficar com pessoas que não estão interessadas em ensinar ninguém, o que dificulta muito a integração. Eu já tive que ser ensinada lá várias vezes, pois não estive sempre no mesmo sítio e sempre tive sorte, porque apanhei colegas simpáticos, que me ajudaram sempre. E onde estou agora, não é que não goste dos colegas que tenho, mas sei que não são fáceis de lidar quando se entra de novo. Nenhum deles se disponibilizou para ensinar o rapaz. É um miúdo de dezanove anos, que, provavelmente, nunca trabalhou e é assim caladinho. Precisa de orientação, obviamente. Eu e as minhas duas colegas estamos numa parte do armazém em que só o podemos ajudar até certo ponto, porque a grande maioria do trabalho que ele deve fazer é da responsabilidade de quem conduz as máquinas e esses, simplesmente, não estão nem aí para o miúdo. Devido ao facto de as coisas serem feitas muitas vezes em cima do joelho e precipitadamente em muitos aspectos, os funcionários ficam aborrecidos com a forma como as coisas são conduzidas. E um dos pontos que os está a lixar é terem mandado o rapaz que lá estava embora, porque ele era desenrascado, despachado, fazia tudo, já conhecia o trabalho e havia uma esperançazinha pequenina que lhe fizessem um contrato pela empresa, o que não aconteceu. Vai daí, está tudo emburrado e, apesar de o rapaz não ter culpa nenhuma disto, ignoram-no. Não têm paciência, nem vontade de o ensinar. Fazem o trabalho deles e o moço anda lá, meio perdido, atrás deles, muito provavelmente, a sentir-se um inútil, porque nem lhe dão trabalho, nem lhe explicam como se faz. Acreditem que até me dá alguma pena, porque certamente essas pessoas não gostariam que fizessem o mesmo aos filhos deles, quando estes começarem a trabalhar. É nisso que penso quando olho para estes miúdos: um dia pode ser o meu.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Do trabalho temporário
O trabalho temporário foi das piores coisas que resolveram instituir neste país. Se são as empresas de trabalho temporário quem mais contrata? São sim senhora. Mas isto não significa que seja benéfico para quem trabalha. Se o trabalho temporário não existisse, as empresas, quando precisassem de pessoal, eram obrigadas a contratar as pessoas na mesma, sendo que teriam que existir contratos com condições que são sempre diferentes. É certo que a vida profissional não está fácil para muita gente, mesmo sendo contratados ou efectivos. Tudo bem. Mas os trabalhadores temporários são os mais desprotegidos dentro de qualquer empresa, que estão sujeitos a todo o tipo de pressões e chantagens por parte da chefia, que não têm regalias e que têm que se sujeitar a tudo, porque, caso contrário, são corridos para serem substituídos. São aqueles que não podem nunca faltar por estarem doentes, que não se podem dar ao luxo de ir a reuniões ou eventos da escola, que nem podem ficar com os filhos doentes em casa, que fazem horas extra e fins-de-semana, que trabalham em todo o tipo de condições, que não têm férias.
Dentro de dois meses, termino o limite de tempo por trabalho temporário na empresa onde estou. Completo um ano de trabalho temporário e, obrigatoriamente, tenho que me ir embora. Vão despedir-me, porque faz parte das regras, como também faz parte delas que estes trabalhadores fiquem quatro meses fora da empresa. Quatro meses! Se isto faz sentido? Não. Nenhum. As pessoas que lá estão já sabem como se trabalha, conhecem o material, os procedimentos, o local de trabalho, os chefes. E obrigam-nas a estar quatro meses fora? E ainda têm que ensinar uma pessoa nova, levando a atrasos na produção, o que é normalíssimo quando se tem uma pessoa a aprender.
Para além da indignação com estas regras parvas, confesso que vou sentir saudades! Não é o meu trabalho de sonho, quando era pequena o que queria para mim não era um futuro numa fábrica a fazer embalagem para produtos do sector automóvel. Mas é um trabalho do qual eu até gosto. Não temos as melhores condições, é certo. Mas é um ambiente do qual eu gosto. Já estou muito habituada ao sítio, às pessoas, às rotinas. Vou sentir a falta de tudo aquilo, as gargalhadas com as colegas de trabalho, as palhaçadas, o bom ambiente que se vive, das conversas banais com as pessoas com quem trabalho, como falar sobre o que fazemos para o jantar e a troca de receitas. É uma rotina que me agrada e que me vai custar perder. Já para não falar do desemprego. Que nisso nem quero pensar... Ter que ir pedir um subsídio merdoso e, muito provavelmente, ser chamada para aqueles cursos... é coisa para me dar urticária!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Roubados à descarada!
O sítio onde trabalho recruta pessoal através de trabalho temporário, como acontece tanto hoje em dia. Em Dezembro, mudou de empresa de trabalho temporário. E a antiga empresa começou a levantar problemas com o pagamento das caducidades. Não pagaram no dia certo e o que aconteceu foi que as pessoas se começaram a juntar na empresa de manhã, pessoas de 2º turno, que só entravam à tarde, pessoas de 3º turno, que trabalharam durante toda a noite e, a partir de uma certa hora, as pessoas do 1º turno, como eu, que foram lá tirar satisfações relativamente ao atraso nos pagamentos. A partir do momento em que elas disseram aos trabalhadores que ainda não havia dinheiro, foi o descalabro. O pessoal da noite, que trabalhou toda a noite, passou lá todo o dia, revezaram-se para ir almoçar, para elas não fecharem as portas, exigiram o dinheiro deles, chamaram a polícia e a televisão e fizeram uma revolução ali. Depois daquilo, elas finalmente disseram que iriam chegar cheques às 21h. Queriam fechar as portas na hora de fecho, às 18h, mas ninguém deixou. Depois de estarmos lá à porta uma série de tempo, apareceu a polícia outra vez. Foi um autêntico caos, elas chamaram seguranças, estavam com medo de ali estar... Às 21h, a hora em que era suposto virem os cheques, dizem que o gerente ainda estava a sair de Lisboa. E nós em Setúbal, à espera... Entretanto, chegou mais polícia, pediram-nos a todos para esperar na rua, fizeram uma barreira e não nos deixaram aproximar. Lá veio o gerente, com escolta policial, toda a gente aos gritos e insultos. Depois, só nos deixaram entrar em grupos pequenos e sempre com a polícia lá dentro. No fim, ainda nos pagaram a menos, já lá voltámos, rectificaram uma parte, mas ainda falta e elas não admitem. Andamos a reunir algumas pessoas das que lá estiveram e já temos reunião marcada com o sindicato. Têm sido dias atribulados e de muito stress. Hoje houve reunião na ginástica e na escola, da associação de pais, tivemos que nos dividir. Enfim, preciso de descanso!
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