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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Um aperto no peito


Passaram 23 dias desde que perdi o meu tio. Os meus avós foram-se completamente abaixo. A minha mãe também, mas tenta aguentar o barco para ajudar os meus avós. A minha tia idem. Na maioria das noites, o meu filho não consegue dormir sozinho e chora. O meu pai perdeu o companheiro de noitadas, parvoíces e de uma vida inteira, a pessoa que melhor o entendia. O meu padrinho, também amigo de longa data, anda a bater mal com esta perda e a correr todos os sítios onde passavam tempo juntos, desde a altura em que todos se conheceram. Eu, que sou a campeã do sono, que dorme em qualquer lado e a qualquer hora do dia, tenho tido dificuldades em adormecer e em dormir tantas horas como habitualmente.

O meu avô está numa altura da vida em que já precisa de ajuda a vários níveis, mas recusa-se terminantemente a aceitar isso. Continua a querer fazer tudo sozinho, ainda que não tenha lucidez nem capacidade para tal. Como é que podemos ajudar alguém que não quer ser ajudado? O desgosto está a levar-lhe a vontade de viver e se lhe tiramos a independência, o que vai ser dele? Entretanto, a vida de toda a gente anda de pantanas.

Quem conhecesse o meu tio, pensaria que ele era uma pessoa de bem com a vida. Víamo-lo sempre alegre, de sorriso na cara e copo na mão. Sempre cheio de piadas e parvoíces na ponta da língua. Sempre com brincadeiras e bem-disposto. Mas, no fundo, ele chorava em silêncio, em casa. Nunca teve uma vida fácil e os problemas sempre foram muitos. Aquela capa que ele usava era mesmo isso, uma máscara. Dizia ele que bem podia morrer, porque não fazia cá falta a ninguém. Mas fazia. Faz. Aos amigos, aos irmãos; aos sobrinhos, aos pais... Como faz, que deixou um buracão na vida de toda a gente!

Desculpem lá a deprimência deste post, especialmente depois de tantos dias sem cá pôr os pés. Prometo que o próximo não vai ser tão triste e espero que estas últimas semanas tenham sido mais generosas convosco do que foram comigo.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Do luto que não acaba

Deve haver pouca coisa mais difícil do que superar a perda de um ente querido. Sempre foi um dos meus maiores medos: perder quem me é mais próximo. Contemplar sem vida uma pessoa que sempre vimos a sorrir e com nada mais do que uma boa-disposição contagiante. É muito doloroso ver alguém partir das nossas vidas demasiado cedo (não é sempre demasiado cedo?), acredito que nunca estejamos preparados para lidar com tamanha dor. Escrevo-vos neste momento deitada na cama, porque tenho um nó que se estende do estômago à garganta que não me tem permitido dormir muito bem nos últimos dias. Tenho a meu lado o meu filho a dormir um sono inquieto e que custou a pegar, porque as lágrimas o venceram quando a noite chegou. Disse-me que gostava quando o tio brincava com ele e que desejava que ele não tivesse ficado doente. Ou que os médicos o tivessem conseguido salvar. E quando oiço estas coisas do meu filho a soluçar de tristeza, a barragem rebenta. A minha família está incompleta. E eu estou cansada. A morte é uma cabra que nos arranca um pedacinho de nós quando nos leva assim alguém.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Até sempre...

Hoje foi um dos dias mais difíceis da minha vida. O meu tio, um dos mais próximos, morreu. No domingo de manhã, foi internado, já inconsciente, devido a um AVC hemorrágico. Entrou em coma profundo. Já sabíamos que não ia acordar. Têm sido dias complicados. Hoje veio a notícia pela qual já esperávamos. Mas que não custou menos por isso; passei o velório inteiro com um nó na garganta, chorei e chorei sem saber onde ainda guardava tantas lágrimas. Até hoje, o meu filho não sabia de nada. Quando o meu tio partiu, fui contar-lhe. Chorou imenso e disse-me que queria muito vê-lo uma última vez e pediu se podia ir deixar-lhe uma flor da sua cor favorita. Senhores, como isto me partiu o coração. Sofrer por uma perda destas e ver o meu filho sofrer tanto com ela também. Custou-me, mas acedi. Deixei-o ir à capela, ainda antes de começar a chegar toda a gente, quando ainda só estávamos nós, os meus pais e a minha irmã. Despediu-se e o B. levou-o embora a chorar ao colo dele.


Estive no velório das 17h à 00h, recebi muitos abraços, beijinhos e condolências. Passei o tempo angustiada, mas senti que precisava de estar ali e fazer o luto. Tinha 54 anos, era irmão da minha mãe e o melhor amigo do meu pai, o companheiro dele de todos os dias. Sempre em festa, sempre com um sorriso na cara. Adorava e passava o tempo a cantar Mamonas Assassinas. Hoje, juntou-se a eles. Tio, estarás sempre no meu coração. Até sempre.

sábado, 25 de novembro de 2017

Dedo na ferida

Uma das séries que acompanho é a "This is us". É uma série dramática, emotiva, que, apesar de ser ficção, é uma representação da realidade de muita gente. Retrata dramas familiares e pessoais e mostra-nos como é difícil ultrapassar certos obstáculos na nossa vida e nas nossas relações (amorosas, familiares e profissionais). Como não sou completamente insensível, é uma série cuja história me chega ao coração. Contudo, o episódio que vi ontem, "Number Two", mexeu muito comigo. Foi um episódio sobre a Kate. Começa com ela a falar com o bebé que tem na barriga, super feliz e entusiasmada, mas acaba depressa. Ela perde o bebé. 


A frustração, a dor, o não saber como lidar com esta perda... Tão familiar. Revi-me nas palavras que ela diz à mãe sobre não perceber como pode estar tão triste, já que o bebé ainda nem tinha tempo suficiente para ela saber o sexo, sendo, por isso, ainda tão pequenino; que nem o conhecia. Revi-me na negação dela em aceitar que aquilo tinha acontecido; e revi-me nos diálogos dela com o noivo, Toby, sobre a situação.

Faz em Janeiro dois anos que sofri um aborto espontâneo. E assistir a este episódio foi reviver tudo aquilo. As dores lancinantes, o sangramento interminável, a impotência, a revolta, a dificuldade em contar ao meu filho o que tinha acontecido, o ter que lidar com as perguntas e comentários das pessoas, a vontade de nunca mais voltar a engravidar. A minha resistência em falar deste assunto, a minha aversão a tudo o que se relacionasse com gravidez e maternidade, a minha relutância em aproximar-me de grávidas e bebés... tudo isso passou, com o tempo. Porém, a mágoa da perda, essa, não passa. Talvez nunca.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um ano depois...

Faz hoje um ano que perdi o meu bebé. Custou imenso a passar, mas, olhando para trás, parece que foi ontem que aconteceu, de tão bem que me lembro. 2016 foi um ano turbulento para mim e há um ano estava no hospital a contorcer-me de dores para expulsar o pequeno ser que tinha parado de se desenvolver na minha barriga. A dor não passa, sabem? Continua a custar relembrar aquele cenário de horror e pensar que, neste momento, podia ter um bebé lindo com 6 meses de vida. Durante semanas, não quis falar com ninguém, ver ninguém, nem sair de casa. Entretanto, passou essa fase, fui obrigada a voltar a enfrentar o mundo e consegui. Mas, depois, veio a fase em que não podia, nem queria, estar perto de bebés, grávidas ou recém-mamãs. Não queria ouvir, nem presenciar, nenhuma conversa sobre gravidez, maternidade, ou qualquer coisa relacionada com o tópico. Quis desistir de ter mais filhos. Coloquei a hipótese de tornar essa decisão permanente e não engravidar nunca mais. Doía-me a alma sempre que passava perto de um bebé. Não é uma sensação que consiga pôr em palavras, mas que dói, dói. Agora, um ano depois, já não me sinto assim. Ultrapassei essa aversão e estou a voltar ao meu eu normal. Aquela pessoa que sempre se derreteu na presença de bebés, que só os quer pegar ao colo, dar beijos nas bochechinhas e sentir-lhes o cheiro delicioso. Continuo com muito receio, porque não posso sequer conceber a ideia de passar por tamanha atrocidade novamente, mas já começo a pensar que gostava de ter outro filho. Que não há coisa melhor neste mundo. Mas é um processo... com calma. Muita calma.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um murro no estômago

Hoje fui ao funeral da avó da minha melhor amiga. Tinha 88 anos. Estava já debilitada. Tinha dificuldades em andar. Sim, era o esperado. Sim, todos sabíamos que ia acontecer, um dia. Mas isso não torna a perda mais fácil. Ela vivia em casa deles. Conheço a minha melhor amiga há cerca de 15 anos e sempre me lembro da presença da senhora lá em casa. Foi tão... pesado. Há anos que não ia a um funeral. E ver pessoas que me são próximas a sofrer é tão... que palavra usar para descrever? Aflitivo? A mãe e a irmã dela a chorar. Abraçá-las e senti-las a soluçar. Sabemos que é a lei da vida, mas, caramba, se custa. A sobrinha mais velha da minha amiga, com 7 anos, está a ter muita dificuldade em aceitar. Escondeu-se debaixo da secretária a chorar. Fez um coração de papel quando lhe deram a notícia e não o largou durante horas. A senhora levou-o com ela no caixão. A mais pequenina, de 5 anos, viu as flores que a família ia levar para o funeral e disse que a avó ia gostar delas. E, quando lhe disseram que ela não podia vê-las, porque tinha morrido, ela respondeu que a avó ia sentir o cheiro. A sério, é de partir o coração. A minha amiga ficou à entrada do cemitério, porque já não suportava ver aquilo de perto. Esteve com ela no velório e assim que veio o carro funerário, não aguentou mais. E eu fiquei com ela, à porta, a assistir de longe, em silêncio. E foi assim que a avó da minha amiga se despediu deste mundo. Num dia que começou escuro, escuro do nevoeiro, em que o sol abriu para vê-la partir.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

De coração partido por Orlando


Não podia deixar de me pronunciar sobre este assunto. Quem já me lê há algum tempo talvez saiba que este é um assunto sensível para mim. Tenho (e sempre tive) muitas pessoas que me são próximas que são homossexuais. Sinto uma revolta enorme quando vejo alguma manifestação de homofobia. Racionalmente, sei que não adianta de nada discutir com uma pessoa homofóbica, porque não se mudam mentalidades com argumentos, por mais válidos que sejam. A pessoa tem a opinião que tem e pronto. No entanto, não sou uma pedra sem emoções e não consigo deixar de ferver quando alguém ataca os gays. Não consigo não entrar em discussão, embora, de há algum tempo para cá, tente ignorar. Revolta-me sobremaneira que não haja respeito pelos outros. Revolta-me que não entendam algo tão simples como isto: a orientação sexual (ORIENTAÇÃO, não OPÇÃO) não se escolhe. Ninguém escolhe ser hetero, como não se escolhe ser gay. Custará assim tanto entender isto? Como é possível que se tirem vidas só porque sim? Filhos, irmãos, sobrinhos, amigos... pessoas que estavam na vida deles, que só se queriam divertir um pouco naquele momento e que estavam a incomodar só por serem quem são. Que mentalidade de merda é esta? Parte-me o coração, de verdade!

Vejam este vídeo... pessoas que resolveram assumir-se às suas famílias. Pessoas que receiam assumir-se e o que sentem com medo da rejeição. Ninguém devia ter receio de ser rejeitado pelas pessoas que mais ama no mundo por uma coisa tão insignificante e que não foi escolhida por eles. Só por amar quem ama. Vejam, é comovente.


Estas são as últimas mensagens que uma das vítimas enviou para a mãe. A dizer que a ama, que está escondido na casa-de-banho e que vai morrer (notícia aqui). Nem consigo imaginar o que esta mãe sentiu ao ler isto. O pânico... que horror. É difícil perceber como é que um ser humano é capaz de sujeitar outros a isto...


sábado, 4 de junho de 2016

Dia da Criança #4



Os meus pais são uns poetas! No Dia da Criança, também o meu pai me deu um poema que escreveu para mim e que, por motivos que se tornarão óbvios para quem me costuma ler, me toca de uma forma muito directa. 


                       O Silêncio

Shhh!!...

Façam silêncio!... Ouvem-no?...
É o silêncio da vida, é a esperança que ecoa,
É silêncio que antecede uma vida parida,
Só quebrado pelo choro que uma criança entoa
QUal prenúncio de missão, vital e proibida
Que, sem permissão, em silêncio lhe foi incumbida

Neste pequeno silêncio... com raiva explodi-lo
Em explosão de silêncios acumulados
Num grande silêncio... em muitos expandi-lo
Como pausas ondulando entre notas!...
Silêncios breves, silêncios prolongados
São pautas vivas cantando em folhas mortas

Ouçam bem o vosso fado...
Escutem-no e tracem o vosso destino
Em memória do silêncio derramado
Por um qualquer psicopata tresloucado
Que, no silêncio outrora trauteado,
Sem saber, também ele já foi menino

Shhh!!...

É o silêncio que os manda calar... respeitem-no!
Sem ele, não há ondas no mar a marulhar,
Não há pássaros no ar a chilrear... sem ele,
Nem se ouvem na Terra crianças a brincar!
Apenas se ouve o tempo, no espaço a esvoaçar...
Afinal... silêncio é música a tocar!...

Não quebrem o feitiço!
Há quem não ouça mais nada,
Só e apenas isso... de forma normal...
Uma tremenda voz imaginada,
Um enorme silêncio mortal...
É voz gritante de uma mãe amargurada

Já nada pode fazer... já nada pode mudar,
A não ser... em silêncio chorar...
Grande é a dor da mãe que viu fugir a vida que, um dia,
Com grande felicidade, em silêncio pariu...
É o silêncio da verdade...
No silêncio nasceu... em silêncio partiu...

Shhh!!...
Foi o silêncio que pediu!...

sábado, 28 de maio de 2016

Há 4 meses...


... perdi o meu bebé.

"Nunca te ouvi, mas oiço-te. Nunca te peguei ao colo, mas sinto-te. Nunca te conheci, mas amo-te."

Hoje, fui ao quarto que tem estado ao abandono aqui em casa, o que estava destinado ao bebé. Tudo o que por lá andava espalhado que tinha comprado, que me tinham oferecido e coisas que eram minhas e do meu filho... guardei tudo. Está enfiado nas gavetas. E apenas tocar nas coisas para as arrumar custou-me. Guardei-as porque ainda quero, um dia, dar-lhes uso. Sei que dizem que o tempo cura e que irei, eventualmente, estar preparada. Mas não me sinto ainda nem perto disso. E o pensamento de que iria passar toda uma gravidez com medo angustia-me. Não consigo ainda conceber a ideia de tentar passar por isso novamente.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Pós-aborto

Hoje fui, finalmente, fazer a ecografia para ver se ficou tudo limpo, se não havia anomalias e se estava tudo bem aqui nos interiores. E está. Mas foi um aperto no coração ir fazer uma ecografia e ver apenas vazio... será que esta sensação algum dia vai desaparecer?

quarta-feira, 16 de março de 2016

Recaídas...


Estive quase 5 meses sem fumar, sem sentir a falta, sem me fazer diferença alguma. Quando perdi o meu bebé, voltei a pegar num cigarro. Precisei. Senti a falta. Não queria saber. Agora, quase dois meses depois, ainda não consegui voltar a deixar. Vou fazê-lo! Mas ainda não. Retomei a minha vida, voltei com toda a energia ao exercício físico, comecei a explorar opções para uma alimentação mais saudável e tenho sido relativamente bem sucedida nesse campo. Quando a minha baixa médica acabou, senti que me fez bem, contrariamente ao que esperava, voltar a ver pessoas, a conviver, a sair de casa. Senti-me com força. Hoje soube que nasceu a filha de um casal meu conhecido. Vi-o anunciado no facebook das pessoas em questão, com uma fotografia da criança. E tive uma crise de choro. Sinto-me sem forças. Como se tivessem voltado a arrancar-me um pedaço de mim. Como se tivesse voltado a perder o chão. Pensei que já tinha ultrapassado isto. Pensei que já era capaz de seguir em frente. Afinal, parece que não. Ainda dói...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

I'm back... Stronger than ever!


Pensei que não estava preparada para ver ninguém. Pensei que tudo o que queria era ficar na minha conchinha. E, sim, gosto muito de estar no meu canto. Sim, não quero que se aproximem muito. E, não, não quero que me encham de perguntas. Mas voltei ontem ao trabalho. E hoje fui fazer uma aula à academia. Volto para lá definitivamente de hoje a uma semana. Já sinto falta dos meus livros, séries, filmes... e do meu ninho. Mas sou capaz de enfrentar o mundo novamente!

Queridas pessoas, não se esqueçam de fazer like no facebook do Bitaites, ali do lado direito! :)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mais tempo, por favor!



A minha baixa está a terminar. Na 2ª feira, já volto ao trabalho. E isso está a deprimir-me como tudo. Não me sinto capaz de voltar. Pode parecer depressivo, mas mal saí de casa desde que aquilo aconteceu. Não me sinto bem na rua, nem perto de pessoas. Não quero ver ninguém, responder a perguntas, conviver, sair de casa, de todo. Só quero continuar no meu canto, enfiada no meu pijama, a tratar da casa, que tem estado mais limpa e arrumada que nunca, no sofá debaixo da manta, a ver séries, filmes, novelas, a ler os meus livros, a tratar do meu filho. O meu coração ainda está assim escurinho, que só ele. Ainda não recuperei o meu arco-íris interior. Só quero casa. E sossego. Não me sinto preparada para ver ninguém... Ainda não.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

I'm really trying


"Pelo menos, foi no início"
"Vais ter muitas outras oportunidades"
"Se aconteceu, foi por uma razão"
"Pelo menos, consegues engravidar"
"Pelo menos, ainda não era mesmo um bebé"

E outras, como:
"Já tens um, devias ficar feliz por isso"
"Já passou um mês, tens que ultrapassar isso!"
"Isso antes dos 3 meses nem chega a ser um bebé"
"Porque estás assim? Até parece que perdeste alguma coisa"
"Não morreu ninguém"
"A vida continua"
"Ficares fechada em casa não vai mudar nada"

NÃO!
Perdi um bebé, o meu filho, que foi planeado e desejado. E é isto que sinto. O que importa se já tenho um? Quer dizer que, por isso, não faz mal ter perdido outro? Então para quem tem dois ou mais filhos, se um morrer atropelado, não faz mal absolutamente nenhum, porque já têm outro com que se contentar?! Se o vosso marido morrer, who cares, porque podem arranjar outro? Se um filho vosso morrer com 3 meses, não faz mal, porque foi no início da vida? Se não têm nada de bom para dizer, fiquem só caladinhos! É uma sensação de vazio terrível. As pessoas parecem pensar que, como não chegou cá fora, nós não os consideramos como uma criança. Que a alegria desde o momento em que obtivemos o positivo no teste pode ser transferida para a próxima gravidez! 

NÃO!
Temos que fazer o luto, temos que chorar, temos que dar tempo para que se ultrapasse a morte de um filho, porque é disso que se trata. Não interessa nada se é um embrião, o tamanho que tem, quanto tempo esteve na barriga. Não interessa que possamos ter mais. Não interessa se já temos algum. Aquele nenhum substitui. No fim, o que fica é um colo vazio. É saber que carregaste uma vida no ventre e que desapareceu, sem aviso, sem te poderes despedir, sem poderes fazer nada. E dói... se dói!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Em recuperação



Depois de um madrugada exasperante com dores e a vomitar... e após isso ter acalmado... ontem à tarde vieram as dores lancinantes. Uma coisa como nunca tinha sentido. Já fui mãe e, apesar de ter tido o meu filho de cesariana, senti as contracções antes do parto. E garanto que o que senti ontem foi muito pior! Nunca pensei ser capaz de suportar tanta dor. Tive que ir para o hospital, pois já só me faltava trepar paredes com as dores. Cheguei lá a contorcer-me e, assim que saí do carro, parecia um filme de terror. Sangue, tanto sangue... Vou poupar-vos aos pormenores, mas não foi uma imagem bonita. Consegui chegar às urgências obstétricas naquele desassossego, gritei com as enfermeiras para me darem medicação, só queria que aquilo acabasse. Foram 4h de dor, uma dor que não desejo a ninguém. Foi um processo de sofrer e fazer força para, no fim, nem ter a recompensa de ter o meu bebé nos braços. Foi, unicamente, para expulsar o que já não estava a desenvolver-se na minha barriga. É uma experiência traumática. Felizmente, tive o meu namorido ao meu lado em todos os momentos, a segurar-me na mão e a dar-me apoio, nunca saindo do meu lado, mesmo com tudo o que se estava a passar. Esteve comigo do princípio ao fim. Os meus pais também têm sido um grande apoio, bem como a minha amiga de longa data, que tem estado comigo em todas as fases da minha vida. Obrigada a todos! A minha médica de família, felizmente, também é uma querida e foi super simpática comigo, prestando-se, inclusivamente, para me consultar no caso de me sentir deprimida ou não estar a conseguir lidar com a situação do aborto. Agora, depois da agonia, tenho um mês de baixa para descansar e recuperar. Uma nova fase começa.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Da perda...



Quando uma mulher sofre um aborto e está ainda em idade de poder tentar engravidar novamente, invariavelmente, os comentários são estes: "vocês são novos, podem tentar outra vez!", "foi pelo melhor, se avançasse e tivesse problemas, seria pior", "não tarda tens outro, vais ver". Acreditem, eu já estive do outro lado e sei que não é por mal. Mas, às vezes, principalmente, quando as pessoas encaram isto com alguma leveza, são comentários que acabam por bater-nos como se tivéssemos ido a correr contra um muro. Não acontece sempre e obviamente que depende do tom com que se diz as coisas... mas, por vezes, magoa. Se vocês tiverem vários filhos e perderem um, certamente não vão gostar de ouvir coisas do género. E facto de ser um pequeno ser ainda em desenvolvimento dentro da barriga não invalida o facto de ser uma perda de um filho. E que também custa. O próximo que vier e que será bem-vindo não será um substituto! Este já ninguém o traz de volta.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Minha estrelinha no céu


Ontem fui, novamente, parar às urgências com perdas de sangue. E o pior confirmou-se: é uma gravidez não evolutiva, que parou às 5 semanas, daí dizerem-me que não podia ter mais tempo que isso. O saquinho gestacional já não está redondinho, agora continuo a perder sangue... e que seja rápido, para que saia tudo depressa. A médica deu-me a opção de lá ficar internada e tomar comprimidos para acelerar a expulsão, mas como nem isso era garantido, porque ela disse que podia não resultar e terem que recorrer à raspagem, decidi vir para casa. Ela diz que, se estou a perder sangue, pode ser que o corpo expulse tudo naturalmente. Disse-me também que, na maioria dos casos, uma gravidez não evolutiva acontece quando há malformações. Por isso, racionalmente, e sendo uma pessoa positiva e optimista, eu consigo perceber que a Natureza se encarregou de não deixar avançar uma gravidez que poderia trazer problemas... No entanto, emocionalmente, não é fácil distanciar-me assim tanto e estou aqui num farrapo. Porque, à parte de todas essas considerações racionais, o que sinto apenas é que perdi o meu bebé.

Novo emprego, novas aprendizagens

2024 foi um ano de muitas mudanças na minha vida, depois do que aconteceu em setembro de 2023. Mudanças essas que continuam a acontecer no m...